Saída dos EUA da OMS ameaça décadas de avanços na África





Os Estados Unidos causaram um grande abalo no sistema global de saúde ao oficializarem a saída da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 22 de janeiro. O país não apenas está entre os membros fundadores da agência como também é o principal contribuinte para o seu orçamento, com quase 15% do total.


A lacuna de financiamento resultante afetará desproporcionalmente a África, onde os gastos da OMS são, em grande parte, direcionados ao combate de doenças infecciosas e ao fortalecimento de sistemas de saúde frágeis.




EUA sai da OMS



  • O presidente Donald Trump anunciou a saída dos EUA da OMS em janeiro de 2025, no dia em que tomou posse para o segundo mandato.

  • O país era, até então, o maior doador da agência de saúde pública da Organização das Nações Unidas (ONU).

  • Os EUA financiaram 75% dos programas da OMS para HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis entre 2024 e 2025.

  • Os esforços para combater o HIV, a poliomielite, a malária e a tuberculose já são afetados pela pausa na ajuda externa dos EUA.




Entre 2020 e 2021, por exemplo, a OMS destinou US$ 17,6 milhões ao Malawi. Agora, analistas de financiamento para o desenvolvimento temem uma redução nos recursos. “Sabemos que a maioria dos países em desenvolvimento, como o Malawi, terá problemas, porque depende da expertise técnica da OMS”, diz o ativista local Maziko Matemba.


Em 20 de janeiro de 2025, apenas algumas horas após retornar ao cargo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto que ordena a retirada dos Estados Unidos da OMS. A saída tornou-se efetiva no dia 22 passado, após um prazo regulamentar de um ano.


Um argumento central do governo Trump é que países com populações maiores que os EUA (como é o caso da China) não contribuem da mesma maneira ao orçamento da OMS. Trump também criticou o papel da OMS na pandemia da Covid-19 e em “outras crises sanitárias mundiais”.


O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesu, disse que as razões invocadas pelos Estados Unidos para saírem da agência da ONU são falsas e reiterou que a saída tornam os EUA e o mundo “menos seguros”.



Riscos do local ao global


Programas voltados para o combate ao HIV/Aids, à tuberculose, à malária, à poliomielite e a doenças tropicais negligenciadas estão numa situação especialmente vulnerável.


Países africanos como Nigéria, Uganda, Quênia, Moçambique, Zâmbia e República Democrática do Congo estão entre os maiores beneficiários do financiamento global de saúde vinculado aos EUA.


Todos eles correm agora risco de interrupções na aquisição de medicamentos, em campanhas de prevenção e nos serviços comunitários de saúde.


Especialistas alertam que mesmo interrupções de curto prazo podem levar ao aumento da transmissão de doenças, ao desenvolvimento de resistência a medicamentos e à reversão de décadas de progresso, por exemplo no controle do HIV e da tuberculose.


Respostas emergenciais


Outro impacto significativo poderá ocorrer no monitoramento de doenças e na resposta rápida a emergências. A OMS desempenha um papel importante na coordenação da detecção de surtos, na troca de informações e numa resposta rápida, por exemplo, para enfrentar o vírus ebola, o vírus de Marburg, a cólera e doenças respiratórias emergentes.


A decisão norte-americana também aumenta o risco de que epidemias locais se transformem em crises regionais ou globais.


Mildred Chisale, trabalhadora sexual em Lilongwe, a capital do Malawi, é uma de várias pessoas que temem perder o acesso a medicamentos que salvam vidas, especialmente após os Estados Unidos também terem encerrado programas da agência de desenvolvimento Usaid.


“Eu fazia parte de um grupo, chamado Associação de Trabalhadoras Sexuais, que trabalhava junto com a Usaid para ter acesso a medicamentos, como o antiviral Prep”, contou ela à DW. “Desde que a Usaid parou de financiar organizações locais, fomos prejudicadas”, acrescentou.


Nova governança


Além de oferecer resposta a emergências, programas apoiados pela OMS na África contribuem para a capacitação da força de trabalho em saúde, saúde materno-infantil, campanhas de imunização e governança do setor de saúde.


Cortes no orçamento dessas áreas cruciais podem forçar governos a aumentar empréstimos, elevar os custos de saúde para as famílias e ampliar a desigualdade no acesso à saúde. Isso pode se refletir em atrasos no atendimento e maior mortalidade, especialmente entre mulheres e crianças.


Além disso, a saída dos EUA reduz sua influência sobre normas e padrões globais de saúde, potencialmente abrindo espaço para que outras potências, como a China, definam prioridades e governança.


Para a África, isso pode significar uma mudança gradual em direção a outros doadores e a órgãos regionais de saúde, especialmente os Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças. Embora a maior autonomia africana em segurança sanitária seja um objetivo de longo prazo, uma transição repentina corre o risco de criar lacunas em financiamento, coordenação e capacidade técnica.


A retirada dos EUA também representa um golpe para o multilateralismo. Para governos africanos que há muito dependem de parcerias internacionais de saúde previsíveis e estáveis, a decisão americana reforça preocupações sobre a confiabilidade de grandes doadores e a fragilidade dos compromissos globais de saúde.


Também significa que profissionais qualificados podem perder seus empregos. Embora não haja plano confirmado sobre cortes de pessoal, a OMS anunciou a intenção de reduzir sua força de trabalho em cerca de 25% até meados de 2026. O tema ainda precisa ser discutido entre os países-membros.






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