
As máquinas de ressonância magnética se tornaram ferramentas importantes na medicina ao ampliar a precisão dos diagnósticos. Agora, uma nova tecnologia promete levar esse avanço também para a odontologia. Um equipamento desenvolvido exclusivamente para examinar a cavidade bucal está em testes e deve começar a ser utilizado no Brasil ainda este ano.
A novidade é resultado de uma pesquisa liderada pelo cirurgião-dentista, pesquisador e professor Rubens Spin-Neto, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.
Em entrevista ao Metrópoles, ele explicou que a proposta da ressonância magnética dedicada à odontologia é oferecer imagens mais precisas, seguras e capazes de revelar alterações que hoje passam despercebidas nos exames tradicionais.
Exame sem radiação e com foco nos tecidos moles
Segundo Spin-Neto, um dos principais diferenciais da nova tecnologia é eliminar completamente a exposição à radiação ionizante, comum na maior parte dos exames de imagem usados atualmente na odontologia.
“A maioria das máquinas que utilizamos hoje depende de radiação ionizante, que, quando acumulada ao longo da vida, está associada a um aumento do risco de câncer. A ressonância magnética não usa esse tipo de radiação e, por isso, é considerada um método totalmente seguro”, explica.
Além da segurança, a ressonância traz outra vantagem importante. Enquanto exames como radiografias e tomografias mostram principalmente estruturas duras, como ossos e dentes, o novo equipamento permite visualizar com clareza os tecidos moles da boca.
“Muitas vezes o paciente procura o dentista por dor, cárie ou um problema ósseo, mas a origem pode estar nos tecidos moles. Essa é a primeira modalidade de imagem que consegue, dentro da odontologia, avaliar tanto os tecidos mineralizados quanto os tecidos moles de forma detalhada”, destaca.
Outro ponto destacado pelo pesquisador é a possibilidade de detectar alterações mais cedo, antes que doenças estejam avançadas.
“Muitos exames só mostram a doença quando ela já causou destruição significativa dos tecidos. A nova tecnologia permite identificar inflamações em fases iniciais, o que facilita tratamentos mais simples, menos invasivos e mais voltados à prevenção”, afirma.
Como funciona a máquina?
O equipamento funciona de maneira semelhante a uma ressonância hospitalar, mas com adaptações importantes. O paciente fica deitado e uma antena específica capta imagens da região maxilofacial, incluindo boca, mandíbula, maxila e seios maxilares.
“Ela lembra uma ressonância tradicional, mas é menor, mais leve e focada apenas na região da face. Isso torna o exame menos claustrofóbico e mais confortável para o paciente”, diz o pesquisador.
O desenvolvimento da máquina começou em 2021, e os primeiros estudos clínicos tiveram início em 2022. Desde então, mais de 500 pacientes já foram avaliados dentro das pesquisas iniciais, que analisam a qualidade das imagens, os benefícios clínicos e a experiência do paciente durante o exame.
Os testes começaram na Dinamarca e, a partir de 2024, foram ampliados para outros países da Europa e da América do Norte. Hoje, existem cerca de dez equipamentos em uso no mundo, a maioria ainda em ambiente de pesquisa.

Aprovação internacional e chegada ao Brasil
A liberação para uso clínico da tecnologia é recente. Na Europa, a aprovação ocorreu em janeiro de 2025. Nos Estados Unidos, veio no fim do mesmo ano. Com essas autorizações, o caminho para o Brasil ficou aberto.
“Quando Europa e Estados Unidos aprovam uma tecnologia, a Anvisa também passa a permitir o uso e a comercialização no Brasil”, explica Spin-Neto.
A expectativa é que os primeiros equipamentos sejam apresentados oficialmente ainda este ano, durante um grande congresso de odontologia em São Paulo. A partir daí, as empresas responsáveis pelo desenvolvimento devem iniciar a distribuição no país.
Embora ainda não haja uma estimativa de preço para o exame no Brasil, Spin-Neto ressalta que a prevenção tende a reduzir gastos futuros com tratamentos complexos.
“A prevenção é sempre o caminho mais barato. Uma tecnologia que antecipa o diagnóstico pode gerar economia a longo prazo, especialmente em um país com população grande como o Brasil”, diz.
Formação profissional e tradição brasileira
Para o pesquisador, o Brasil tem uma vantagem importante na adoção da nova tecnologia. A radiologia odontológica faz parte da formação dos cirurgiões-dentistas, o que deve facilitar a adaptação ao novo exame.
“O treinamento foi pensado para seguir uma lógica semelhante à das tecnologias de imagem já existentes. Muitos profissionais brasileiros já têm contato com ressonância magnética, o que torna essa transição mais natural”, explica.
Spin-Neto afirma que acompanhar a chegada da tecnologia ao Brasil tem um significado especial.
“O Brasil sempre teve um papel de liderança na odontologia. Como pesquisador e brasileiro, é muito gratificante ver uma tecnologia que ajudei a desenvolver chegando para beneficiar pacientes no meu país”, conclui.
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