Consultor corporativo cobra mais ações, ao avaliar que plano de Lula alivia pressões imediatas, sem ganhos sustentáveis
Serão limitados e temporários os impactos da iniciativa do governo Lula (PT) de anunciar, nesta quarta-feira (13), um pacote emergencial de R$ 30 bilhões em crédito subsidiado para empresas afetadas pelo tarifaço de 50% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Esta é a avaliação do consultor corporativo Wagner Pagliato, coordenador do curso de Ciências Contábeis e do MBA em Controladoria e Finanças Corporativas da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid).
Mesmo tardio, anunciado após sete dias da vigência do tarifaço, o plano é avaliado por Pagliato como uma reação necessária para evitar um vácuo político e dar fôlego imediato às empresas mais pressionadas. Mas não garante resultados sustentáveis, diante da sanção do presidente Donald Trump, que exige o fim à ação penal que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), denunciado por supostos crimes para uma “trama golpista”.
“O pacote oferece alívio rápido de liquidez, preserva cadeias produtivas regionais e sinaliza compromisso com os setores atingidos. No entanto, sem ações estruturais e diplomáticas, o impacto será limitado e temporário”, avalia o especialista.
Lula assinou a medida provisória que institui o plano denominado “Brasil Soberano” com presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Efeitos colaterais
Wagner Pagliato afirma que a eficácia do pacote denominado “Plano Brasil Soberano” dependerá da evolução do cenário. E alerta o Brasil precisará de medidas adicionais, caso o tarifaço se prolongue.
“É fundamental complementar com estratégias de diversificação de mercados, fortalecimento da competitividade e negociações diplomáticas que ataquem as causas do problema, e não apenas os sintomas”, sugere.
Os efeitos de variáveis externas e de riscos estruturais sobre o pacote e empresas brasileiras também precisam ser avaliados, segundo Wagner Pagliato. Porque, o crédito subsidiado pode provocar efeitos colaterais indesejados, após um alívio para o curto prazo.
“Se a renda não for preservada e as exportações não se recuperarem, pode haver retração no consumo e manutenção artificial de empresas pouco competitivas. […] A manutenção de juros elevados nos Estados Unidos tende a valorizar o dólar e pressionar a inflação doméstica. Por outro lado, reduções nas taxas lá fora podem favorecer a apreciação do real e reduzir custos financeiros, ampliando os efeitos positivos das medidas internas”, conclui.

Inflação afeta poder de compra de itens básicos pelos brasileiros. (Foto: Davi Soares)
Não exclui danos a brasileiros
O consultor corporativo Wagner Pagliato pondera que o quadro de danos do tarifaço sobre os brasileiros, ainda fora do radar dos indicadores macroeconômicos pode mudar no médio e longo prazo, com inflação sobre produtos agrícolas e dependentes de insumos encarecidos pela nova tarifa. “O efeito tende a ser mais intenso quando a oferta interna não conseguir absorver o excedente antes destinado à exportação”, explica
Pagliato ainda prevê que uma eventual desvalorização cambial pode promover pressões inflacionárias e reflexos no consumo e na política monetária. “A incerteza e a perda de poder de compra podem conter o consumo. Nesse cenário, o Banco Central deve adotar cautela, evitando cortes mais agressivos na Selic enquanto houver risco inflacionário”, detalha.
O plano de Lula prevê, além do crédito bilionário, outras medidas que priorizam pequenos negócios e setores de alimentos perecíveis, atingidos pela taxação. E tem uma estratégia de tripé de tributo, crédito e seguro: ampliando linhas de financiamento, flexibilizando o uso de créditos tributários e ampliando acesso ao Fundo de Garantia à Exportação (FGE).
O regime de drawback também muda, para permitir ao exportador importar insumos com menos impostos. E o prazo para acesso ao crédito tributário será ampliado para até um ano, garantindo planejamento de maior fôlego. Além disso, haverá adiamento por até dois meses no pagamento de tributos e contribuições federais para empresas diretamente afetadas pelo tarifaço.
Ainda há a previsão de compra governamental de produtos que seriam exportados aos EUA, principalmente perecíveis como pescados, frutas e mel.
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