Sem diplomacia, pacote de R$ 30 bi contra tarifaço é limitado e efêmero

 Consultor corporativo cobra mais ações, ao avaliar que plano de Lula alivia pressões imediatas, sem ganhos sustentáveis

Lula assinou MP do plano Brasil Soberano com presidente da Câmara seu vice e presidente do Senado. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Serão limitados e temporários os impactos da iniciativa do governo Lula (PT) de anunciar, nesta quarta-feira (13), um pacote emergencial de R$ 30 bilhões em crédito subsidiado para empresas afetadas pelo tarifaço de 50% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Esta é a avaliação do consultor corporativo Wagner Pagliato, coordenador do curso de Ciências Contábeis e do MBA em Controladoria e Finanças Corporativas da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid).

Mesmo tardio, anunciado após sete dias da vigência do tarifaço, o plano é avaliado por Pagliato como uma reação necessária para evitar um vácuo político e dar fôlego imediato às empresas mais pressionadas. Mas não garante resultados sustentáveis, diante da sanção do presidente Donald Trump, que exige o fim à ação penal que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), denunciado por supostos crimes para uma “trama golpista”.

“O pacote oferece alívio rápido de liquidez, preserva cadeias produtivas regionais e sinaliza compromisso com os setores atingidos. No entanto, sem ações estruturais e diplomáticas, o impacto será limitado e temporário”, avalia o especialista. 

Lula assinou a medida provisória que institui o plano denominado “Brasil Soberano” com presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

Efeitos colaterais

Wagner Pagliato afirma que a eficácia do pacote denominado “Plano Brasil Soberano” dependerá da evolução do cenário. E alerta o Brasil precisará de medidas adicionais, caso o tarifaço se prolongue.

“É fundamental complementar com estratégias de diversificação de mercados, fortalecimento da competitividade e negociações diplomáticas que ataquem as causas do problema, e não apenas os sintomas”, sugere.

Os efeitos de variáveis externas e de riscos estruturais sobre o pacote e empresas brasileiras também precisam ser avaliados, segundo Wagner Pagliato. Porque, o crédito subsidiado pode provocar efeitos colaterais indesejados, após um alívio para o curto prazo.

“Se a renda não for preservada e as exportações não se recuperarem, pode haver retração no consumo e manutenção artificial de empresas pouco competitivas. […] A manutenção de juros elevados nos Estados Unidos tende a valorizar o dólar e pressionar a inflação doméstica. Por outro lado, reduções nas taxas lá fora podem favorecer a apreciação do real e reduzir custos financeiros, ampliando os efeitos positivos das medidas internas”, conclui.

Inflação afeta poder de compra de itens básicos pelos brasileiros. (Foto: Davi Soares)

Não exclui danos a brasileiros

O consultor corporativo Wagner Pagliato pondera que o quadro de danos do tarifaço sobre os brasileiros, ainda fora do radar dos indicadores macroeconômicos pode mudar no médio e longo prazo, com inflação sobre produtos agrícolas e dependentes de insumos encarecidos pela nova tarifa. “O efeito tende a ser mais intenso quando a oferta interna não conseguir absorver o excedente antes destinado à exportação”, explica

Pagliato ainda prevê que uma eventual desvalorização cambial pode promover pressões inflacionárias e reflexos no consumo e na política monetária. “A incerteza e a perda de poder de compra podem conter o consumo. Nesse cenário, o Banco Central deve adotar cautela, evitando cortes mais agressivos na Selic enquanto houver risco inflacionário”, detalha.

O plano de Lula prevê, além do crédito bilionário, outras medidas que priorizam pequenos negócios e setores de alimentos perecíveis, atingidos pela taxação. E tem uma estratégia de tripé de tributo, crédito e seguro: ampliando linhas de financiamento, flexibilizando o uso de créditos tributários e ampliando acesso ao Fundo de Garantia à Exportação (FGE).

O regime de drawback também muda, para permitir ao exportador importar insumos com menos impostos. E o prazo para acesso ao crédito tributário será ampliado para até um ano, garantindo planejamento de maior fôlego. Além disso, haverá adiamento por até dois meses no pagamento de tributos e contribuições federais para empresas diretamente afetadas pelo tarifaço.

Ainda há a previsão de compra governamental de produtos que seriam exportados aos EUA, principalmente perecíveis como pescados, frutas e mel.

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