
Ficar algumas horas longe das telas do celular ou do computador pode gerar inquietação, ansiedade e até irritação. Para muitas pessoas, o desconforto surge mesmo em momentos de lazer ou contato com a natureza.
A dificuldade de se desconectar das tecnologias, segundo especialistas, não é apenas um hábito ruim — é resultado de adaptações do cérebro a um ambiente de estímulos constantes.
O uso intenso de telas ativa circuitos ligados à recompensa, à antecipação e ao alerta. Com o tempo, o organismo passa a funcionar em estado de vigilância contínua, o que interfere na capacidade de relaxar e desacelerar.
O cérebro em busca de recompensa rápida
A psicóloga Carmela Silveira, da Santa Casa de São José dos Campos, explica que o cérebro humano não foi projetado para lidar com estímulos múltiplos e imprevisíveis ao longo de todo o dia.
“A tecnologia ativa circuitos de alerta, recompensa e antecipação o tempo todo”, afirma.
Segundo ela, essa exposição frequente vai substituindo o estado natural de presença por um funcionamento permanente de vigilância. “Não é fraqueza individual: é uma adaptação neuroemocional a um ambiente hiperestimulante”, diz.
Na prática, cada notificação, curtida ou vídeo curto oferece uma pequena recompensa imediata. O cérebro, altamente sensível à novidade, aprende rapidamente a preferir esse tipo de estímulo.
A psicóloga Quezia Lucena de Almeida, do Complexo Hospitalar Santa Casa de Bragança Paulista, explica que as plataformas digitais foram construídas justamente com esse mecanismo em mente.
“A tecnologia digital ativa diretamente esse sistema. O cérebro humano é altamente sensível à novidade, à antecipação e à possibilidade de recompensa”, diz.
Como esses estímulos são rápidos e previsivelmente gratificantes, o cérebro passa a buscá-los com mais frequência. Atividades que exigem atenção lenta — como leitura, contemplação ou contato com a natureza — podem parecer menos interessantes para quem já está habituado à hiperestimulação.
Por que o silêncio incomoda?
O problema não está apenas no excesso de uso, mas na dificuldade de ficar sem ele. Muitas pessoas relatam desconforto ao tentar relaxar longe do celular.
Para Carmela, o aparelho se tornou uma extensão do campo emocional. “Quando o celular se afasta, o que emerge não é apenas o silêncio externo, mas o contato com pensamentos, emoções e sensações que vinham sendo evitadas”, alerta.
Ela destaca que é comum a confusão entre relaxamento e distração. “Estar na natureza, sem o celular, exige presença — e presença implica sentir”, afirma.
Quezia explica que, ao tentar desacelerar, pode ocorrer um conflito interno: enquanto o ambiente natural favorece o relaxamento fisiológico, o cérebro condicionado à conexão constante interpreta a desconexão como perda de controle ou de acesso social. Isso ativa circuitos de alerta e gera inquietação. Com exposição gradual e repetida ao silêncio, porém, o cérebro reaprende a tolerar ritmos mais lentos.
Estamos desaprendendo a descansar?
Na prática clínica, as psicólogas observam sinais de que muitas pessoas têm dificuldade de permanecer em repouso sem estímulos externos. Entre eles estão a necessidade constante de ruído, a checagem automática do celular em momentos de pausa e a sensação de culpa ao não estar “produzindo” ou consumindo conteúdo.
“O estado de hiperconectividade mantém o sistema nervoso em alerta prolongado”, afirma Carmela. “Isso favorece sintomas como ansiedade difusa, cansaço sem causa aparente e sensação de esgotamento emocional.”
Quezia acrescenta que a exposição contínua a picos de estímulo pode alterar o limiar de prazer do cérebro. Atividades restauradoras passam a parecer pouco estimulantes.
Ela cita a psiquiatra Anna Lembke, autora do livro Dopamine Nation, que descreve um processo de dessensibilização: quanto mais recompensas rápidas recebemos, menos prazer sentimos — e mais estímulos buscamos.
“O uso excessivo de tecnologia ativa circuitos semelhantes aos envolvidos em vício”, resume Quezia. “Quando a pessoa se afasta do celular, pode sentir inquietação, irritabilidade ou ansiedade.”
Desconectar é possível?
As especialistas defendem que o caminho não é abandonar a tecnologia, mas reequilibrar a relação com ela. Pequenas pausas intencionais ao longo do dia, contato com a natureza sem objetivo produtivo e atenção à respiração são estratégias iniciais.
O desconforto inicial faz parte do processo. Com o tempo, o cérebro reaprende que o silêncio não é ameaça — é recuperação. Em um ambiente que recompensa a conexão constante, reaprender a descansar pode ser um exercício de saúde mental.
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