
Abandonar hábitos ruins como fumar, dormir mal, consumir álcool em excesso ou recorrer à comida para aliviar emoções não provoca apenas mudanças de comportamento.
Segundo especialistas, a decisão de parar e adotar uma rotina mais saudável desencadeia uma série de transformações reais no cérebro, que envolvem desde ajustes químicos até alterações na forma como diferentes áreas cerebrais se comunicam.
Embora o início do processo possa ser desconfortável, os benefícios tendem a se acumular com o tempo e afetam atenção, memória, emoções e tomada de decisão.
O que acontece no cérebro quando um hábito ruim é interrompido
Do ponto de vista neurológico, parar um hábito ruim significa retirar estímulos que prejudicam o funcionamento cerebral. “Ao abandonar comportamentos como o tabagismo ou o sono inadequado, já são observadas mudanças positivas importantes no cérebro”, afirma a neurologista Sheila Martins. Entre elas, estão:
- Modificações estruturais e funcionais;
- Melhora da conectividade entre regiões cerebrais;
- Ajustes na neuroquímica.
Estudos mostram, por exemplo, aumento da espessura do córtex cerebral — especialmente nas áreas frontais, ligadas ao planejamento e ao autocontrole — após a cessação do cigarro, além da normalização de neurotransmissores como dopamina e serotonina e melhora do fluxo sanguíneo cerebral.

Quanto tempo o cérebro leva para se recuperar?
Essas mudanças não acontecem todas de uma vez. O tempo de recuperação varia conforme o tipo de hábito, a idade e o período de exposição. Em dias ou semanas, já é possível perceber melhora do humor e da atenção, principalmente quando o sono se torna mais regular.
Em semanas a meses, funções cognitivas como memória, raciocínio e tomada de decisão podem se recuperar parcial ou totalmente. Em prazos mais longos, de meses a anos, surgem mudanças estruturais mensuráveis, como o fortalecimento do córtex pré-frontal e a redução do risco de declínio cognitivo, perda de memória e AVC.
Esses ganhos ajudam a explicar por que abandonar hábitos ruins costuma melhorar o desempenho mental. O hipocampo, região central para a memória, é muito sensível ao sono, ao estresse e à inflamação.
“Já o córtex pré-frontal, responsável pelo foco, pelo controle dos impulsos e pelas decisões, sofre com a nicotina, o álcool, a privação de sono e o estresse crônico”, reforça a neurologista.
Quando o estilo de vida melhora, a comunicação entre os neurônios se torna mais eficiente, o metabolismo cerebral funciona melhor e as redes neurais passam a operar de forma mais integrada, resultando em mais clareza mental e escolhas mais racionais.
A recuperação do cérebro em diferentes idades
A capacidade de recuperação existe em todas as idades, embora não seja igual. Jovens apresentam maior plasticidade cerebral e tendem a se adaptar mais rápido. Adultos de meia-idade também respondem bem às mudanças, o que torna essa fase crucial para a prevenção de demência e AVC.
Já em idosos, apesar de a plasticidade ser menor, ela continua presente e pode gerar ganhos relevantes em cognição, humor e autonomia. Mesmo pequenas melhorias nessa fase têm impacto significativo na qualidade de vida.
“No começo da mudança, o cérebro costuma reclamar. O estresse inicial pode causar sintomas temporários como dor de cabeça, irritabilidade, ansiedade, cansaço, dificuldade de concentração e alterações do sono, especialmente na interrupção do cigarro ou do álcool”, explica Martins.
Esses sinais refletem uma reorganização da neurotransmissão e da neuroquímica cerebral, além do aumento transitório de hormônios do estresse, como o cortisol. A tendência, no entanto, é de melhora progressiva.
Sinais de que o cérebro já está se beneficiando
- Sono mais profundo e restaurador.
- Maior clareza mental ao despertar.
- Melhora da atenção sustentada.
- Memória mais confiável.
- Equilíbrio emocional.
- Sensação geral de bem-estar.

O papel do circuito de recompensa e das emoções
Sob a ótica psicológica, abandonar um hábito ruim exige uma reconfiguração do funcionamento mental. A psicóloga Luciana Oliveira, especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC), explica que hábitos nocivos costumam estar ligados ao circuito de recompensa do cérebro, oferecendo prazer imediato ou alívio emocional.
“Quando esse padrão é interrompido, ocorre um desconforto inicial, mas, com o tempo, novas formas de recompensa mais saudáveis podem ser construídas, tornando o comportamento menos impulsivo e mais consciente”, diz a psicóloga.
Pensamentos automáticos como “não vou conseguir” ou “só hoje não faz mal” e crenças profundas de incapacidade ou fracasso alimentam a autossabotagem. Esse conjunto enfraquece o autocontrole e aumenta o risco de recaídas, especialmente em momentos de estresse ou cansaço emocional.
Por isso, os especialistas destacam que substituir um hábito costuma ser mais eficaz do que apenas eliminá-lo. O cérebro responde melhor quando uma nova resposta atende à mesma necessidade emocional do comportamento antigo.
O reaprendizado do cérebro e a plasticidade neural
O psicólogo Yuri Busin explica que hábitos ruins funcionam como atalhos para obter prazer rápido, ativando sistemas de recompensa como dopamina e serotonina. Nesse contexto, mudanças de hábitos fazem o cérebro precisar construir novos caminhos, o que demanda tempo e repetição.
Não há um prazo único para isso. “O processo depende da complexidade do hábito e do contexto de vida. Em situações de estresse intenso, é comum o cérebro tentar voltar ao padrão antigo, por ser mais econômico em termos de energia” afirma o psicólogo.
A melhora do sono, maior bem-estar e uma memória mais afiada costumam surgir antes mesmo de qualquer alteração visível em exames e indicam que o cérebro está respondendo positivamente às mudanças, reforçando que a adaptação e o aprendizado são possíveis ao longo de toda a vida.
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