H9N2 pode virar pandemia? Saiba por que cepa da gripe aviária preocupa





A gripe aviária é uma doença viral altamente contagiosa que afeta diversas espécies de aves, incluindo aquelas destinadas à produção de alimentos. Conhecida principalmente por surtos que impactam a avicultura e, em casos mais raros, seres humanos, a infecção passa a chamar atenção com o monitoramento mais atento da cepa H9N2.


Embora ela circule há décadas de forma silenciosa, novas evidências científicas levantam questionamentos sobre seu potencial de adaptação aos humanos.


A cepa H9N2 faz parte do grupo de vírus influenza A e é considerada uma das variantes mais disseminadas entre aves domésticas e silvestres, sobretudo na Ásia. Diferente de subtipos mais conhecidos, como o H5N1, ela costuma causar quadros leves nas aves e, por isso, historicamente recebeu menos atenção.


Segundo a infectologista Fernanda Rick, da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), o que hoje chama atenção para a H9N2 não é sua letalidade, mas a capacidade de adaptação.


“Ela sempre foi um vírus mais silencioso, que não provoca grandes surtos com mortalidade elevada. O ponto central agora é que análises genéticas mostram sinais de que esse vírus está se tornando mais eficiente em infectar células humanas”, explica.

Essa característica faz com que a H9N2 seja frequentemente citada por especialistas como uma possível “semente” para uma futura pandemia. Fernanda destaca que pandemias nem sempre surgem a partir dos vírus mais agressivos no início.


“O risco aumenta quando um vírus animal começa a adquirir adaptações que facilitam a ligação aos receptores das vias respiratórias humanas, mesmo antes de haver transmissão sustentada entre pessoas”, afirma a médica.


A infectologista Mirian Dal Ben, do Hospital Sírio-Libanês, reforça que a preocupação não está no cenário atual, mas no comportamento do vírus ao longo do tempo.


“A H9N2 é considerada endêmica em algumas regiões e já causou infecções leves em humanos, especialmente na Ásia. O que chama atenção é a capacidade desse vírus de se reorganizar geneticamente quando circula em aves”, completa.


Vírus; gripe - Metrópoles
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Casos humanos existem, mas são raros


Até hoje, foram registrados pouco mais de 150 casos humanos de infecção por H9N2 no mundo, a maioria com sintomas semelhantes aos de uma gripe leve. De acordo com Fernanda, esse número pode ser subestimado.


“Muitos desses quadros leves não são testados especificamente para gripe aviária. Do ponto de vista clínico, não há indicação rotineira, então a vigilância é mais epidemiológica”, ressalta.


Um ponto considerado positivo, por enquanto, é a ausência de transmissão comprovada entre pessoas. “Isso mantém o risco pandêmico baixo neste momento”, afirma Fernanda. Ainda assim, as especialistas alertam que o comportamento do vírus precisa ser acompanhado de perto.


Mistura genética


Um dos fatores que mais preocupam os cientistas é a capacidade do H9N2 de trocar material genético com outros vírus da gripe quando infecta o mesmo hospedeiro. Mirian esclarece que esse processo pode dar origem a novas variantes com maior potencial de infecção em humanos.


“Já foram identificadas recombinações do H9N2 com outros subtipos, como o H7N5. Essas misturas genéticas geram novos vírus que podem ter maior capacidade de transmissão e causar quadros mais graves”, afirma.

Estudos recentes indicam que algumas dessas variantes resultantes infectam células humanas com mais eficiência em laboratório do que cepas antigas.


Fernanda acrescenta que análises genéticas mostram mudanças progressivas desde 2015. “Amostras mais recentes apresentam maior afinidade por receptores humanos do que aquelas coletadas no fim dos anos 1990. Isso não significa que uma pandemia seja iminente, mas mostra uma trajetória de adaptação que precisa ser monitorada”, destaca.


Vacinas existem mas não para uso amplo


Atualmente, já existem vacinas contra a H9N2 usadas em aves, principalmente para reduzir prejuízos econômicos. No entanto, a vacinação humana ainda não é adotada em larga escala. Segundo Mirian, os esforços globais estão concentrados em subtipos considerados mais perigosos no momento, como o H5N1.


“A vantagem em relação a outros cenários é que a tecnologia para produção de vacinas contra influenza é bem conhecida. Diferente do que ocorreu no início da pandemia de Covid-19, hoje temos plataformas consolidadas para responder mais rapidamente, se necessário”, pontua.

Vigilância constante é necessária


Do ponto de vista da vigilância epidemiológica, os cientistas acompanham de perto quais subtipos de vírus da gripe estão circulando em aves, mamíferos e humanos. Esse monitoramento permite identificar rapidamente mudanças de comportamento viral e casos inesperados de infecção.


“É assim que conseguimos detectar, por exemplo, infecções humanas por vírus que normalmente circulam apenas em animais. Esse acompanhamento contínuo é essencial para antecipar riscos e orientar decisões de saúde pública”, finaliza Mirian.






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