
Uma alteração metabólica silenciosa pode estar presente mesmo em pessoas que não apresentam excesso de peso. É o que indica um estudo publicado na revista Nature Medicine em 2 de janeiro, conduzido por pesquisadores da Universidade de Gotemburgo, na Suécia.
A pesquisa propõe uma nova forma de avaliar o risco de doenças como diabetes tipo 2 e síndrome metabólica, olhando além da balança.
O trabalho parte de uma crítica ao uso isolado do índice de massa corporal (IMC), que relaciona peso e altura. Embora muito utilizado na prática clínica, o indicador não leva em conta como a gordura está distribuída no corpo nem como o metabolismo funciona.
Segundo os autores, isso faz com que pessoas com o mesmo IMC possam ter riscos muito diferentes para doenças metabólicas.
Uma nova forma de medir o risco
Os pesquisadores desenvolveram o chamado IMC metabólico, ou MetBMI. A métrica combina dados tradicionais de peso com informações obtidas a partir de metabólitos presentes no sangue, substâncias produzidas durante processos metabólicos e também pela ação das bactérias intestinais.
“Nosso IMC metabólico identifica um distúrbio metabólico oculto, que nem sempre é visível na balança. Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter perfis de risco completamente diferentes, dependendo de como seu metabolismo e o tecido adiposo funcionam”, afirma a endocrinologista Rima Chakaroun, da Universidade de Gotemburgo, em comunicado.
Para construir o modelo, a equipe analisou dados clínicos e amostras de sangue de 1.408 pessoas. Com base neles, foi criado um algoritmo capaz de estimar o MetBMI a partir de marcadores biológicos ligados ao metabolismo.
Em seguida, o método foi testado em um segundo grupo, com 466 indivíduos, e mostrou desempenho superior ao IMC tradicional na identificação de riscos metabólicos.
Risco elevado mesmo sem excesso de peso
Os resultados indicam que pessoas com MetBMI mais alto do que o esperado para o seu peso corporal apresentaram 2,6 vezes mais chances de ter diabetes tipo 2.
O risco de síndrome metabólica foi ainda maior, chegando a ser até cinco vezes superior em comparação com indivíduos com o metabolismo considerado mais saudável.
O estudo também encontrou uma forte relação entre o MetBMI e o funcionamento do intestino. Índices mais altos estiveram associados a uma microbiota intestinal menos diversa e a uma menor presença de bactérias capazes de degradar fibras alimentares.
Segundo o pesquisador Fredrik Bäckhed, também da Universidade de Gotemburgo, isso reforça o papel do intestino na saúde metabólica.
“Os metabólitos que mais contribuem para a previsão do IMC metabólico são modulados ou produzidos pela microbiota intestinal, funcionando como uma espécie de indicador do estado metabólico do organismo”, destaca.
Esses achados sugerem que fatores como alimentação e atividade física, que influenciam diretamente as bactérias intestinais, podem melhorar a saúde metabólica mesmo sem grandes mudanças no peso corporal.
Efeitos após cirurgia bariátrica
Em uma etapa adicional da pesquisa, os cientistas analisaram dados de 75 pacientes submetidos à cirurgia bariátrica.
Os resultados mostraram que aqueles com MetBMI mais elevado antes do procedimento perderam menos peso ao longo do tempo, o que, segundo os pesquisadores, reforça a importância da saúde metabólica no controle do peso e na resposta aos tratamentos.
Embora os autores ressaltem que o MetBMI ainda precisa ser validado em outros estudos antes de ser adotado na rotina clínica, eles defendem que a nova métrica pode ajudar a identificar pessoas em risco que hoje passam despercebidas.
“O IMC tradicional frequentemente falha ao identificar indivíduos com peso considerado normal, mas com alto risco metabólico. O IMC metabólico pode contribuir para uma avaliação mais precisa do risco de doenças e apoiar estratégias de prevenção e tratamento mais individualizadas”, finaliza Fredrik Bäckhed.
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https://jornalismodigitaldf.com.br/estudo-propoe-mudanca-no-imc-para-diagnosticar-doencas-metabolicas/?fsp_sid=250351
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