Crianças aprendem mesmo quando parecem distraídas, mostra estudo





Nem sempre a criança que aparenta estar desatenta realmente está, pelo contrário. Um estudo feito por psicólogos da Universidade de Toronto, no Canadá, sugere que essa “distração” pode, na verdade, revelar um mecanismo natural de aprendizagem na infância.


Publicado na revista Psychological Science, o trabalho comparou o desempenho de crianças de 7 a 9 anos e adultos em duas situações. No primeiro experimento, os participantes foram orientados a prestar atenção em desenhos.


No segundo, receberam a instrução de ignorá-los e realizar uma tarefa completamente diferente. Após cada cenário, todos tinham de identificar o mais rápido possível fragmentos das imagens apresentadas.


Enquanto os adultos aprenderam mais quando foram orientados a prestar atenção nos desenhos, as crianças tiveram o mesmo nível de aprendizado em ambos os contextos, prestando atenção ou não. Esses achados refletem o comportamento natural do cérebro infantil.


“Isso acontece porque a atenção seletiva e o controle inibitório dependem do córtex pré-frontal, que ainda está em desenvolvimento nas crianças”, explica Bianca Batista Dalmaso, psicóloga sênior do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita.

No primeiro bloco de testes, os pequenos chegaram a aprender melhor as imagens do que os adultos, sugerindo que o cérebro infantil opera com uma atenção mais ampla e menos seletiva. Essa característica não deve ser vista como falha, mas como parte do desenvolvimento típico.


“Nós, adultos, temos um filtro que nos faz focar em uma coisa e deixar o resto de lado. As crianças ainda estão construindo esse filtro e é justamente isso que as torna tão curiosas e criativas”, destaca a psicóloga.

Essa menor seletividade abre espaço para uma aprendizagem “acidental” que os adultos frequentemente perdem. “As crianças aprendem com a professora, com barulhos do corredor, com desenhos na parede”, ilustra Bianca Dalmaso.


Para os autores do estudo canadense, isso provavelmente explica, por exemplo, por que elas aprendem tão facilmente outros idiomas. “Aquilo que chamamos de distração pode ser, na verdade, uma forma eficiente de explorar o mundo”, reforça a especialista do Einstein.



No segundo bloco de testes, a diferença entre crianças e adultos diminuiu, possivelmente por cansaço, esquecimento mais rápido ou interferência. Ainda assim, o achado geral se manteve: direcionar a atenção das crianças não melhora necessariamente seu aprendizado, ao contrário do que acontece com os adultos.


Para Dalmaso, essa sensibilidade infantil pode ser uma vantagem. “Se o ambiente é rico em estímulos que ajudam a construir repertório, como jogos, experiências sensoriais ou interação social, a ‘distração’ se torna ferramenta de aprendizado”, afirma.


“Atenção infantil não é sinônimo de olhar fixo. Ela aprende em movimento, em conversa, em brincadeira.” O importante é diferenciar exploração produtiva de sobrecarga sensorial.

Os resultados podem trazer implicações práticas importantes para as estratégias de ensino. “A criança não desvia o olhar para ‘desobedecer’. Ela faz isso porque seu cérebro ainda não sabe ignorar o restante”, reforça a psicóloga.


“Não adianta ficar repetindo ‘presta atenção!’. O cérebro infantil está desenvolvendo essa capacidade. Para que o conteúdo ganhe protagonismo, ele precisa competir bem com o resto do ambiente”, conclui Dalmaso.






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