Cientistas analisam por que a gripe está mais intensa nesta temporada





A gripe tem avançado de forma mais intensa nesta temporada e já deixou milhões de pessoas doentes em diferentes partes do mundo. Países como Reino Unido, Itália, Estados Unidos, Canadá e Japão registraram aumento expressivo de casos e hospitalizações, em alguns locais antes mesmo do período em que a doença costuma ganhar força.


Para especialistas, a explicação passa principalmente pela circulação de uma nova variante do vírus influenza, que acumulou mutações relevantes e se tornou menos parecida com a cepa usada na vacina desta temporada. Isso dificulta a resposta do sistema imunológico e ajuda o vírus a se espalhar com mais facilidade, mesmo entre pessoas vacinadas ou que já tiveram gripe recentemente.


“De repente, não estamos vendo apenas casos, mas um grande número de casos”, disse à revista Nature o virologista Andrew Pekosz, da Escola de Saúde Pública da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, nos Estados Unidos.


Ano marcado pelo H3N2


Grande parte dos casos da temporada está ligada ao subtipo H3N2, conhecido por evoluir de forma mais rápida do que outras linhagens do vírus da gripe.


Uma variante específica, chamada de subclado K, se tornou dominante em escala global a partir de setembro de 2025 e hoje responde por cerca de 80% das infecções por influenza no mundo. “Tudo indica que boa parte do cenário atual pode ser atribuída a essa variante do clado K”, diz Pekosz.


Esse domínio coincidiu com um comportamento atípico da gripe em vários países. No Reino Unido, na Europa continental e no Japão, a temporada começou cerca de um mês antes do esperado.


Na Austrália, durou mais tempo do que o normal. No Canadá, todas as províncias e territórios registraram aumento expressivo de casos ao mesmo tempo, o que ampliou a pressão sobre os serviços de saúde.


Incompatibilidade de vacinas


Outro ponto importante é o intervalo entre a escolha das cepas que entram na vacina e a evolução real do vírus. Análises indicam que o subclado K surgiu por volta de fevereiro do ano passado, mas só foi sequenciado meses depois.


Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) selecionou as cepas que serviriam de base para as vacinas da temporada no hemisfério norte, essa variante ainda não era conhecida.


“Existe uma diferença entre a cepa da vacina e a cepa que está circulando agora”, explica o virologista Scott Hensley, da Universidade da Pensilvânia. Mesmo assim, ele ressalta que a vacinação continua sendo fundamental, especialmente para evitar formas graves da doença.


Em um estudo preliminar publicado na plataforma medRxiv em 6 de janeiro, Hensley e colegas observaram que, em parte das pessoas vacinadas, a resposta imunológica ainda foi suficiente para reduzir o risco de complicações graves causadas pelo subclado K.


Mutações em ritmo acelerado


O subclado K chama a atenção pelo número elevado de mutações. Em comparação com a cepa H3N2 usada na vacina, ele apresenta 11 alterações na hemaglutinina, proteína que forma as espículas na superfície do vírus e permite sua ligação às células humanas.


É justamente nessa proteína que o sistema imunológico costuma agir. Após uma infecção ou vacinação, o organismo produz anticorpos que a reconhecem.


“Mesmo uma única mutação pode ser suficiente para impedir que esses anticorpos se liguem ao vírus”, explica Hensley. Sem essa ligação, a neutralização da infecção se torna mais difícil.

Segundo análises do virologista computacional John Huddleston, do Fred Hutchinson Cancer Center, o H3N2 costuma acumular de uma a três mutações relevantes a cada seis meses. A velocidade observada agora é considerada muito alta e ajuda a explicar por que a gripe se espalhou tão rapidamente.


Imunidade mais baixa


Além das mutações, os especialistas relembram que nas últimas temporadas, os vírus do grupo H3 circularam menos, o que fez com que parte da população chegasse a este ano com níveis mais baixos de proteção contra esse subtipo.


Na temporada anterior, eles responderam por cerca de metade dos casos nos Estados Unidos e por aproximadamente 40% na Europa, proporções inferiores às observadas em outros períodos.


Diante desse cenário, os pesquisadores reforçam que a vacinação segue sendo a principal estratégia para reduzir hospitalizações e mortes, sobretudo entre idosos, crianças pequenas e pessoas com doenças crônicas.






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