Oficinas localizadas no Distrito Federal faturaram cerca de R$ 600 mil com o golpe do pneu. Ao menos 80 idosos foram vítimas do esquema
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A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), por meio da Coordenação de Repressão aos Crimes contra o Consumidor, a Ordem Tributária e Fraudes (Corf), identificou quatro oficinas envolvidas no esquema que faturou cerca de R$ 600 mil com o chamado “golpe do pneu”, aplicado contra ao menos 80 idosos na capital do país.
A coluna Na Mira apurou que os comércios estão localizados na Asa Sul, no Sudoeste, em Taguatinga Sul e Santa Maria.
As oficinas envolvidas no esquema são:
- José Pneus – CSD 6, lote 22 – Taguatinga Sul;
- JK Pneus – CRS quadra 514, bloco C, loja 69 – Asa Sul;
- Alemão Autocar – QMSW 02, conjunto B, lote 4, loja 1 – Sudoeste;
- Satilus Pneus – Quadra AC 219, conjunto A, lote 3 – Santa Maria.
De acordo com as investigações, as lojas são comandadas por Maurício Fernando Saraiva de Oliveira, 59 anos, identificado como chefão da quadrilha. Ele foi um dos alvos da Operação Rota Scan III, deflagrada nessa quinta-feira (25/2).
Mesmo com as empresas investigadas formalmente registradas em nome de terceiros, os chamados “laranjas”, a PCDF reuniu uma sequência de provas que apontam Maurício como líder do esquema.
As investigações tiveram início em 2021, com a Operação Rota Scam I. À época, o foco eram empresas do grupo Grid Pneus, vinculadas a Maurício, que já aplicavam a mesma modalidade de golpes contra idosos.
Somente contra a Grid Pneus e Serviços Automotivos foram registradas cerca de 46 ocorrências naquele período por cobranças exorbitantes por serviços não solicitados ou sequer realizados.
No âmbito dessa apuração, o empresário acabou condenado em primeira instância a um ano de reclusão e quatro anos e sete meses de detenção em regime semiaberto por crimes contra o consumo e associação criminosa. Além dele, dois gerentes da oficina foram condenados pela prática delitiva
Mesmo após a condenação, os investigadores identificaram um padrão que reforçou a suspeita de continuidade criminosa. As empresas mudavam frequentemente de nome e de sócios, mas permaneciam nos mesmo endereços, estratégia interpretada como tentativa de ocultar os verdadeiros responsáveis.
A prática incluía a utilização de “laranjas”, criação de novas pessoas jurídicas e manutenção do mesmo tipo de abordagem abusiva contra consumidores vulneráveis.
A PCDF concluiu que os sócios “de direito” das atuais oficinas investigadas mantêm laços diretos com as firmas de Mauricio investigadas em 2021, seja por relações familiares ou por vínculos empregatícios.
A repetição do padrão criminoso, o uso de endereços já conhecidos, a conexão entre os envolvidos e a permanência do mesmo modelo de abordagem às vítimas formaram o conjunto que sustenta a atribuição de liderança a Maurício.
As investigações foram conduzidas pelo diretor adjunto da Divisão de Defesa do Consumidor (DDCON/CORF), Rodrigo Carbone, junto da equipe. Ao todo, foram cumpridos 11 mandados de busca e apreensão e cinco de prisão temporária.
Troca de pneu por R$ 20 mil
Os alvos principais dos criminosos eram idosos, escolhidos pela vulnerabilidade. Ao buscar um simples reparo, como a troca de um pneu, a vítima era induzida a autorizar serviços desnecessários. Depois, surgiam “novos defeitos” e os orçamentos disparavam para valores entre R$ 15 mil e R$ 20 mil.
Quando questionavam o preço do serviço, os clientes eram pressionados e coagidos. O esquema era marcado por fraude, intimidação e exploração da boa-fé de pessoas idosas. Em alguns casos, caso se recusassem a efetuar o pagamento do valor cobrado, as oficinas ameaçavam reter os veículos das vítimas.
Outras ocorrências anteriores também vieram à tona, como o caso de um idoso de 75 anos que, em 2022, foi coagido a pagar R$ 17,7 mil em serviços feitos de maneira indevida em uma das oficinas investigadas.
Em 2025, outro idoso de de 79 anos foi uma vítima da empresa JK Pneus. Ele havia procurado a oficina somente para realizar o balanceamento da roda dianteira do carro, mas ao retornar no local lhe ofereceram um orçamento de R$17,5 mil. Após muito reclamar, acabou pagando R$ 10 mil pelo serviço.
“Erro no sistema”
No início deste ano, uma das vítimas mais recentes procurou a oficina para realizar a troca de um pneu do veículo, o qual custaria em torno de R$400.
Durante a execução dos serviços, o mecânico disse que seria necessário a troca de várias peças, alegando que, se não fossem trocadas, a mesma estaria em risco, e o serviço ficaria por R$1.890.
Ela autorizou o serviço e saiu do local. Quando retornou posteriormente, foi informada que tiveram que realizar outras trocas de peças, ficando o valor final por R$4.187. A vítima afirmou ter se sentido pressionada e, por isso, fez o pagamento.
Dias depois, retornou à oficina e falou com o gerente sobre o preço abusivo. Ela foi informada que realmente havia ocorrido um erro no sistema e que iriam fazer um estorno de R$ 1,5 mil. Todavia, procurou a PCDF para denunciar o golpe.
O Metrópoles ligou em todos os telefones disponíveis das oficinas citadas no inquérito policial. Porém, até a última atualização desta reportagem, nenhum estabelecimento havia respondido às tentativas. O espaço segue aberto para possíveis manifestações.





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