
Uma condição pouco conhecida, ligada ao acúmulo de proteínas nos vasos sanguíneos do cérebro, pode estar associada a um risco muito maior de demência.
A angiopatia amiloide cerebral (AAC) ocorre quando depósitos da proteína amiloide se acumulam nas paredes dos vasos, enfraquecendo sua estrutura ao longo do tempo e interferindo no funcionamento cerebral.
Um amplo estudo preliminar mostrou que pessoas diagnosticadas com AAC apresentaram cerca de quatro vezes mais chances de desenvolver demência em um período de cinco anos, mesmo sem terem sofrido um acidente vascular cerebral (AVC).
Os resultados serão apresentados na Conferência Internacional de AVC de 2026 da American Stroke Association, que acontece em Nova Orleans, nos Estados Unidos, entre 4 e 6 de fevereiro.
O que é a angiopatia amiloide cerebral
- A AAC é considerada uma doença do envelhecimento e pode evoluir de forma silenciosa. Em muitos casos, pequenas quantidades de amiloide se depositam nos vasos sem provocar sintomas perceptíveis.
- O diagnóstico clínico costuma ocorrer quando esse acúmulo se torna extenso o bastante para comprometer os vasos e afetar a função cerebral.
- Em estágios mais avançados, os depósitos podem tornar as paredes vasculares frágeis, aumentando o risco de rupturas e sangramentos no cérebro.
- Por isso, a condição já era conhecida por elevar a probabilidade de AVC hemorrágico, além de também estar ligada a acidentes vasculares causados por coágulos.
“Muitas pessoas com AAC desenvolvem demência, mas até agora os médicos não tinham dados claros sobre com que rapidez isso acontece”, disse o neurologista e autor do estudo Samuel S. Bruce, da Weill Cornell Medicine, em comunicado.
Para entender melhor a velocidade e a frequência com que a demência aparece após o diagnóstico de AAC, pesquisadores analisaram registros de saúde de mais de 1,9 milhão de beneficiários do Medicare com 65 anos ou mais, entre 2016 e 2022.
Os participantes foram acompanhados ao longo do tempo conforme mudavam de categoria, sem AAC ou AVC, apenas AAC, apenas AVC ou ambas as condições, o que permitiu observar quando surgia um novo diagnóstico de demência.
Risco elevado mesmo sem histórico de AVC
Os resultados indicaram que a AAC está fortemente associada ao desenvolvimento de demência, com peso maior do que o AVC isoladamente. Em cinco anos, a demência foi identificada em cerca de 42% das pessoas com AAC, enquanto entre indivíduos sem a condição o índice ficou em torno de 10%.
Mesmo aqueles diagnosticados com AAC, mas sem histórico de AVC, apresentaram uma probabilidade 4,3 vezes maior de receber um diagnóstico de demência ao longo do estudo. Já pessoas que tiveram AVC sem AAC tiveram um risco menor, ainda que elevado, de 2,4 vezes.
Bruce chama atenção para o fato de o risco ter sido semelhante entre quem tinha AAC com e sem AVC. “Isso sugere que mecanismos não ligados diretamente ao AVC são fundamentais para explicar o declínio cognitivo na AAC”, destacou.
Para ele, os dados reforçam a importância de monitorar de forma ativa alterações cognitivas após o diagnóstico.
Limitações e próximos passos
Os autores ressaltam que a pesquisa foi feita a partir de registros administrativos do Medicare, usados para fins de atendimento e faturamento, e não de avaliações médicas detalhadas ou exames de imagem.
Por isso, alguns diagnósticos podem não refletir com total precisão a condição clínica dos pacientes, embora os pesquisadores tenham adotado códigos que já demonstraram boa confiabilidade em estudos anteriores.
Os cientistas defendem que novos estudos, acompanhando pacientes desde o início com métodos diagnósticos padronizados, serão necessários para entender melhor a progressão da doença e como reduzir o risco de demência associado à angiopatia amiloide cerebral.
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