Ausência de latinos e de Hollywood marca seleção do Festival de Cannes





O Festival de Cannes anunciou, nesta quinta-feira (9/4), a lista de filmes da 79ª edição e reacendeu o debate sobre representatividade na principal vitrine do cinema mundial. Após anos de maior abertura ao cinema latino-americano, a seleção de 2026 aponta para um perfil mais conservador — e a região fica de fora da disputa pela Palma de Ouro.


Para a jornalista e crítica de cinema Flávia Guerra, o cenário não chega a surpreender: o que era, de fato, incomum era a forte presença latino-americana nos últimos anos.


“Infelizmente a exceção é quando a gente tem filmes latino-americanos em competição. Nos últimos 10 anos, os quatro filme latino-americanos que competiram a palma de ouro foram brasileiros: Aquarius, Bacurau, O Agente Secreto, todos de Kleber Mendonça Filho, e Motel Destino, de Karim Aïnouz”, pontuou.

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Troféu Palma de Ouro do Festival de Cannes
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Troféu Palma de Ouro do Festival de Cannes

Samir Hussein/WireImage
CANNES, FRANCE - MAY 11: The official festival poster is on display during the installation at the Palais de Festival ahead of the 78th annual Cannes Film Festival at  on May 11, 2025 in Cannes, France. (Photo by Thomas Kronsteiner/Getty Images)
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CANNES, FRANCE - MAY 11: The official festival poster is on display during the installation at the Palais de Festival ahead of the 78th annual Cannes Film Festival at on May 11, 2025 in Cannes, France. (Photo by Thomas Kronsteiner/Getty Images)

Thomas Kronsteiner/Getty Images
Presidente e o diretor do Festival de Cannes, Iris Knobloch e Thierry Frémaux, na coletiva do 79º Festival de Cannes
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Presidente e o diretor do Festival de Cannes, Iris Knobloch e Thierry Frémaux, na coletiva do 79º Festival de Cannes

Corbis/Corbis via Getty Images
Logo do Festival de Cannes exibida durante a coletiva de imprensa do 79º Festival de Cannes
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Logo do Festival de Cannes exibida durante a coletiva de imprensa do 79º Festival de Cannes

Marc Piasecki/Getty Images

Para a especialista, a ausência chama ainda mais atenção quando comparada à presença dominante da França na seleção. Ao todo, o país ocupa cerca de oito vagas na competição principal, enquanto regiões inteiras, como América Latina e África, ficaram de fora. “É um pouco de falta de aposta mesmo, falta de coragem de apostar no novo”, destacou Flávia.



Cinema latino e africano de fora


O contraste é ainda mais evidente diante do recente destaque de produções latino-americanas no evento. Em 2025, filmes da região voltaram a ganhar espaço e visibilidade. O longa brasileiro O Agente Secreto, estrelado por Wagner Moura, venceu dois prêmios principais de Melhor Direção e Melhor Ator, o que gerou expectativa por uma continuidade desse movimento com a presença de longas latinos.


Fora da competição principal, contudo, o cinema latino segue presente, mas em mostras paralelas. A mostra Um Certo Olhar, conhecida por abrigar produções mais ousadas, inclui títulos da América Latina, como um filme chileno e outro costa-riquenho, ambos dirigidos por mulheres.


“Às vezes traz filmes mais interessantes, às vezes não, quase sempre mais interessantes e ousados do que a própria competição oficial, porque lá tem maior liberdade para ter filmes que ousam mais”, completa.

O longa Elefantes na Névoa, inclusive, que está entre os selecionados na mostra, é uma coprodução internacional entre Nepal, Alemanha, Brasil, França e Noruega.


Segundo a análise da especialista, essa tendência é explicada porque o festival mantém uma tradição de priorizar cineastas já consagrados e recorrentes na programação, o que limita a entrada de novas vozes.


Diretores considerados “queridos” de Cannes seguem presentes, reforçando uma curadoria mais segura. São exemplos Ryusuke Hamaguchi, Pedro Almodóvar, Paweł Pawlikowski, Andrey Zvyagintsev e Ira Sachs.


Hollywood também ficou fora da seleção


Outro ponto de destaque na seleção é o esvaziamento de produções de Hollywood — tanto na competição principal quanto nas sessões de maior visibilidade.


Para Flávia, faltam filmes com o perfil que Cannes tradicionalmente valoriza: produções que equilibram assinatura autoral e escala de estúdio. “Os grandes estúdios não estão fazendo nem ultra blockbusters nem filmes autorais”, frisou.


Mesmo quando nomes de peso aparecem na programação, ficam fora da disputa principal. É o caso de Ron Howard e Steven Soderbergh, que lançam em 2026 documentários sobre John Lennon e o fotógrafo Richard Avedon, respectivamente.


“Para competir pela Palma, um documentário precisa ser muito diferenciado — ter algo muito autoral. Não é o caso desses dois”, analisa.

Outro fator é a ausência das chamadas “mega pré-estreias”, que costumam levar grandes produções comerciais ao festival. Flávia aponta que Duna: Parte 3 seria um candidato natural para esse tipo de exibição, mas avalia que o estúdio provavelmente não optou por esse caminho.


A crítica também destaca o impacto das regras do mercado francês — em especial a chamada janela de exibição, que obriga os filmes a permanecerem em cartaz nos cinemas por um período antes de chegarem ao streaming. A Netflix, que tem marcado presença nas últimas temporadas de premiação, raramente adota essa prática, o que limita sua participação em festivais com essa exigência.


Apesar do anúncio desta quinta-feira, a seleção ainda não está totalmente fechada. É comum que o festival acrescente novos títulos nas semanas anteriores ao evento, seja por ajustes de programação, seja pela finalização de algumas obras.





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